Keeta adia Rio e taxas prometidas a restaurantes seguem no papel
A estreia anunciada para março não saiu do lugar, e a promessa de taxa menor com repasse em sete dias segue valendo só para quem opera na Grande São Paulo.
A Keeta, braço de delivery da chinesa Meituan, anunciou que começaria a operar no Rio de Janeiro em março de 2026, com cerca de 17 mil restaurantes e 27 mil entregadores já cadastrados na cidade. A estreia não aconteceu. Em 4 de março, a empresa cancelou o evento de lançamento, demitiu aproximadamente 200 pessoas da equipe montada no Rio e concentrou os cerca de 1.200 postos restantes na operação paulista, que roda desde novembro de 2025 na capital e em cidades como Guarulhos, Santo André, Osasco e Barueri.
O motivo declarado tem nome: contrato de exclusividade. Pelo mapeamento da própria Keeta, das cerca de 800 redes de restaurantes com mais de cinco lojas no país, mais de 400 estão impedidas de entrar em um segundo aplicativo. O CEO Tony Qiu disse que o cenário no Rio era pior do que a empresa projetava e pior do que o encontrado em São Paulo. A companhia manteve o compromisso de R$ 5,6 bilhões de investimento até 2030, mas os mais de R$ 400 milhões reservados para a praça carioca ficaram parados.
O que as taxas da Keeta prometem a restaurantes
A proposta comercial que circula desde a chegada ao Brasil é de comissão de 2 a 3 pontos percentuais abaixo da cobrada pelo iFood para o mesmo perfil de operação, repasse dos recebíveis em sete dias sem taxa de antecipação e nenhuma cláusula de exclusividade. O padrão de mercado citado pela empresa para o repasse é de 30 dias.
Faça a conta na sua realidade antes de se empolgar. Numa casa que fatura R$ 60 mil por mês dentro do aplicativo, 2 pontos percentuais de comissão valem R$ 1.200 mensais. Sete dias em vez de 30 mudam o capital de giro de quem hoje antecipa recebível e paga por isso. São valores informados pela plataforma, sem auditoria independente, e só existem onde ela opera.
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A multa de exclusividade que trava a troca de aplicativo
Quem assinou exclusividade tem uma cláusula de saída cara. As multas relatadas vão de centenas de milhares de reais até cerca de R$ 1 milhão, dependendo do porte da rede. A Keeta mantém perto de mil pessoas dedicadas a mapear esses contratos e vem pagando parte dessas penalidades para abrir lojas. Quando o restaurante também quer entrar no 99Food, a oferta relatada é de bancar metade da multa, deixando a outra metade na negociação do lojista.
Para o dono de uma casa só, o ponto prático é outro: releia o que você assinou. Bônus de adesão, verba de marketing e programa de destaque costumam vir com trava de plataforma única e prazo mínimo.
Onde a disputa vai ser decidida
O Cade abriu em abril investigação sobre contratos de exclusividade do 99Food que estariam barrando concorrentes, e a 99Food responde que exclusividade é forma legítima de parceria comercial já reconhecida pelo órgão. A arbitragem do caso é esperada para o segundo semestre de 2026. Enquanto não sai, quem está fora da Grande São Paulo segue com duas opções reais de marketplace, e a promessa de taxa menor serve mais como argumento de renegociação do que como contrato assinado.
O que fazer com isso
- Puxe o contrato do seu aplicativo atual e procure as palavras exclusividade, multa rescisória e prazo de vigência antes de negociar com qualquer entrante.
- Calcule em reais quanto valem 2 pontos percentuais de comissão e a antecipação que você paga hoje, para saber o tamanho real do ganho que está sendo prometido.
- Use a concorrência como alavanca na renegociação com quem já te atende, pedindo revisão de comissão ou prazo de repasse por escrito.
- Não reorganize a operação contando com a chegada da Keeta na sua cidade enquanto não houver data confirmada.
Para aprofundar
- Guia das taxas de delivery para restaurante
- Repasse da Keeta ao restaurante: R$ 142 no app, R$ 85,48 no caixa
- Antecipação de repasse do iFood sem taxa: o que vale no apagão
Fontes
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