Carne cultivada no Brasil: o que muda no cardápio do restaurante
Setor global cresce 17,2% ao ano, mas o food service inteiro movimentou US$ 88,5 milhões em 2025 e a venda segue sem autorização da Anvisa
O mercado mundial de carne cultivada, aquela produzida a partir de células animais em biorreatores, fechou 2025 em US$ 198,47 milhões, segundo levantamento da Market Growth Reports citado pela CNN Brasil. Dentro desse total, o canal de serviços de alimentação, que é restaurante, bar e rede, respondeu por US$ 88,5 milhões. O varejo e o consumo doméstico ficaram com US$ 110 milhões.
A projeção é chegar a US$ 827,93 milhões em 2034, com crescimento de 17,2% ao ano. O percentual impressiona, o valor absoluto não: o food service de carne cultivada do planeta inteiro movimenta hoje menos do que uma rede brasileira de porte médio fatura em um ano.
E no Brasil não há um grama à venda. A Anvisa publicou a RDC 839/2023, em vigor desde 16 de março de 2024, que criou o caminho de registro para alimentos e ingredientes inovadores, incluindo os de cultivo celular e fermentação. Caminho aberto não é produto liberado: nenhuma empresa concluiu esse registro, e a comercialização continua sem autorização.
Por que a carne cultivada ainda não chega ao Brasil
O país tem estrutura sendo montada, não prateleira. A JBS ergueu em Florianópolis, dentro do Sapiens Parque, um centro de pesquisa em proteína cultivada com US$ 22 milhões nas duas primeiras fases, laboratório e planta piloto, e US$ 62 milhões previstos para o projeto completo em três etapas. A terceira etapa é justamente um módulo em escala industrial para provar que a conta fecha. A empresa também comprou a espanhola BioTech Foods.
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Do outro lado há pressão política. O PL 4616/2023 quer proibir pesquisa, produção, importação e venda de carne cultivada no Brasil por qualquer técnica. Nos Estados Unidos, Flórida e Texas já aprovaram leis restritivas, enquanto o USDA autorizou frango cultivado da Believer Meats e o FDA liberou salmão da Wildtype em restaurantes selecionados. Singapura foi o primeiro país a permitir a venda, em 2020. A Europa ainda define critérios de segurança e rotulagem.
O gargalo é a escala, e ele aparece no custo
O custo por quilo caiu até 85% desde 2020. A Believer Meats fala em US$ 6 a US$ 7 por libra, patamar próximo ao do frango orgânico nos Estados Unidos, com uma unidade de US$ 123 milhões e capacidade projetada de 12 mil toneladas por ano. Para efeito de comparação, 12 mil toneladas equivalem a poucos dias de abate de um frigorífico grande.
O meio de cultura celular responde por até 95% do custo de produção, e a meta do setor é derrubá-lo para menos de US$ 1 por litro. O mesmo levantamento aponta 29% de hesitação entre consumidores e 24% dos mercados sem regulação clara.
O que isso significa para a compra desta semana
Nada muda na sua ficha técnica agora. Muda no discurso de quem vende. Se um distribuidor oferecer “carne cultivada” no Brasil em 2026, o produto é outro: proteína vegetal texturizada, proteína de fermentação ou análogo de carne. São categorias legítimas e liberadas, com custo e rendimento próprios, mas que não podem ser vendidas ao cliente com o nome de carne cultivada.
O que fazer com isso
- Peça o número de registro na Anvisa antes de aceitar qualquer produto apresentado como carne cultivada, porque hoje ele não existe.
- Cheque a rotulagem do que já compra como análogo de carne e corrija a descrição no cardápio, evitando termo que induza o cliente a erro.
- Guarde o custo de referência de US$ 6 a US$ 7 por libra para comparar quando a categoria finalmente for liberada aqui.
- Ignore a pauta na precificação de 2026 e concentre a atenção no custo da proteína convencional, que é o que aperta a margem agora.
Fontes
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